23/01/2009
 

JANEIRO


Este será, possivelmente, o último registro no blog do Patrimônio utilizando-se o presente layout. A previsão é que, até 30 de janeiro, seja lançada sua nova versão: mais interativa, com espaço para comentários para as matérias, RSS, formato WAP para leitura direta em celular e, sobretudo, conteúdo mais variado e abrangente.

******

A propósito: a estação das águas definitivamente começou – chuvas intensas castigam São Luís todos os dias, causando os transtornos de sempre, mas existe pelo menos a compensação da temperatura amena, ideal para a degustação de um bom vinho tinto depois de um longo passeio pelo Centro Historio. Ou mesmo durante esse passeio...

No clima, trazemos para esta sexta-feira um poema do expressionista austríaco Georg Trakl:

ZU ABEND MEIN HERZ

Am Abend hört man den Schrei der Fledermäuse.
Zwei Rappen springwen auf der Wiese.
Der rote Ahorn rauscht.
Dem Wanderer erscheint die kleine Schenke am Weg.
Herrlich schmecken junger Wein und Nüsse.
Herrlich: betrunken zu taumeln in dämmernden Wald.
Durch schwarzes Geäst tönen schmerzliche Glocken.
Auf das Gesicht tropft Tau.

(1912)


MEU CORAÇÃO AO CREPÚSCULO (*)

No crepúsculo ouve-se o grito dos morcegos.
Dois cavalos saltam no gramado.
O ácer vermelho sussurra.
Ao andarilho surge no caminho a pequena taberna.
Maravilhoso o sabor de vinho novo e nozes.
Maravilhoso: cambalear bêbado na floresta crepuscular.
Pelos galhos negros ressoam sinos aflitos.
No rosto pinga orvalho.

(*) Tradução de Claudia Cavalcanti

   
 
   
  [Escrito às 12h12min]  [Quadro: Unsere strasse in Grau, 1911, August Macke]
   
  01/12/2008
 

DEZEMBRO


O ano está, por assim dizer, em sua reta final: os dias parecem de repente ficar mais curtos, e mesmo que a Crise (sim, com C maiúsculo) continue varrendo o mundo de cima a baixo, mesmo que as contas se acumulem e os prognósticos para o futuro imediato não sejam nada animadores - ainda assim as pessoas conseguem desacelerar um pouco no trabalho, esquecer as muitas preocupações da vida, sorrir com mais freqüência. Sobretudo, se permitem ainda ter alguma esperança.

O ano que vem será melhor do que este que se vai? Bem, não se responde a essa pergunta objetivamente, tendo por base unicamente a razão. Há um componente de imponderabilidade na vida – tanto para que aconteçam coisas boas quanto más -, e é nele que se aposta em momentos assim, mas na verdade se considerando apenas a primeira hipótese.

Ter esperança não custa nada. Se o pior advier, pelo menos as forças internas que alimentam a alma foram irrigadas com momentos de paz e tranqüilidade, e assim fortalecidas - a vida, ou o destino, não podem exigir mais do que isso.

Para todos os que ainda se permitem ter esperança e sonhar, um poema iluminado de Dylan Thomas

E a morte não terá nenhum domínio

E a morte não terá nenhum domínio.
Nus, os mortos irão se confundir
Com o homem no vento e a lua Do poente;
Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó,
Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos;
Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos,
Ainda que submersos no mar, haverão de ressurgir;
Ainda que os amantes se percam, o amor persistirá;
E a morte não terá nenhum domínio.

E a morte não terá nenhum domínio.
Aqueles que há muito repousam sob as dobras do mar
Não morrerão com a chegada do vento;
Contorcendo-se em martírios quando romperem os tendões,
Acorrentados à roda da tortura, jamais se partirão;
Em suas mãos, a fé irá fender-se em duas,
E as maldades do unicórnio os atravessarão;
Espedaçados por completo, eles não se quebrarão.
E a morte não terá nenhum domínio.

E a morte não terá nenhum domínio.
Não mais irão gritar as gaivotas aos seus ouvidos
Nem se quebrar com fragor as ondas nas areias;
Onde uma flor desabrochou não poderá nenhuma outra
Erguer sua corola para as rajadas da chuva;
Ainda que estejam mortas e loucas, suas cabeças
Haverão de enterrar-se como pregos através das margaridas,
Irrompendo no sol até que o sol se ponha.
E a morte não terá nenhum domínio.

   
 
   
  [Escrito às 19h47min] [Quadro: Morte e Vida, de Gustav Klimt]
   
  10/11/2008
 


SEGUNDA-FEIRA


E para embalar o começo da semana, nada melhor do que um belo soneto de Odylo Costa, filho:

Soneto de Fidelidade

Não receies, amor, que nos divida
um dia a treva de outro mundo, pois
somos um só que não se faz em dois
nem pode a morte o que não pôde a vida.

A dor não foi em nós terra caída
que de repente afoga mas depois
cede à força das águas. Deus dispôs

que ela nos encharcasse indissolvida.

Molhamos nosso pão quotidiano
na vontade de Deus, aceita e clara,
que nos fazia para sempre num.

E de tal forma o próprio ser humano
mudou-se em nós que nada mais separa
o que era dois e hoje é apenas um.

(Cantiga Incompleta, 1971).

   
 
   
  [Escrito às 11h45min]  [Foto: Odylo Costa, filho]
   
  24/10/2008
 

AINDA ARTHUR AZEVEDO

Decorridos cem anos de seu falecimento, Arthur Azevedo continua atual – suas peças estão sendo cada vez mais encenadas no Brasil e no exterior, e há uma crescente procura por seus contos, modalidade de narrativa curta em que figura como mestre rematado.

De sua vasta obra, que compreende mais de quatro mil artigos e crônicas, a faceta menos conhecida do grande público é a poesia.

Assim, nada mais oportuno para embalar esta sexta-feira do que um de seus belos e trágicos sonetos.

Eterna Dor

Já te esqueceram todos neste mundo
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.

Desde esse dia um látego irancudo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.

Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!

E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura.

   
 
   
  [Escrito às 10h20min]    [Quadro no Quarto da Alma, de Guilherme de Faria]
   
  10/10/2008
 

CENTENÁRIO

No próximo dia 22 de outubro, será comemorado o centenário da morte de um dos maiores dramaturgos do Brasil: Arthur Azevedo.

Nascido em São Luís do Maranhão no dia 27 de julho de 1855, Arthur Azevedo escreveu mais de duzentas peças, consagrando-se nacionalmente como mestre imbatível na comédia de costumes. Irmão mais velho de Aluísio de Azevedo, um dos maiores romancistas do Brasil, Arthur Azevedo desenvolveu também intensa atividade jornalística, além de ter sido poeta satírico, cronista e contista dos mais apreciados.

Ao morrer no dia 22 de outubro de 1908, no Rio de Janeiro, Arthur Azevedo ocupava a cadeira nº 29 da Academia Brasileira de Letras, da qual foi um dos membros fundadores

   
 
   
  [Escrito às 11h45min]    [Foto: Arthur Azevedo]
[Matérias relacionadas: Aluísio Azevedo e Cuxá: bem imaterial do Maranhão]
   
  19/09/2008
 

UM REGISTRO ESPECIAL


Está nos anais: no ano da graça de 1832, São Luís recebeu um visitante ilustre – Alcide Charles Victor Marie Dessalines d’Orbigny (1802-1857). Esse célebre naturalista francês, que entre 1826 a 1833 fez um longo périplo pela América do Sul e retornou à França levando consigo uma coleção de mais de dez mil espécimes, alguns dos quais desconhecidos até aquela época, deixou a seguinte impressão sobre a Cidade e seu povo:

“Não só a riqueza da região, o desejo de imitar os costumes europeus – cujo gosto foi ministrado por inúmeras casas comerciais francesas e inglesas – mas também, e principalmente, a liberdade, a boa educação, a polidez e doçura dos maranhenses, contribuíram para tornar aquela cidade um dos lugares do Brasil onde é mais agradável a permanência.”

Alcide d’Orbigny, que por aquela época conhecia o Brasil melhor que muitos brasileiros, foi também categórico ao afirmar que São Luís era então a quarta cidade mais importante do Brasil, atrás apenas do Rio de Janeiro, Salvador e Recife.
   
 
   
  [Escrito às 10h20min]   [Foto: Alcide d’Orbigny]
   
  08/09/2008
 

396 anos

Além do aniversário de fundação de São Luís, esse dia 08 de setembro marca também os trinta e um anos de falecimento de seu poeta ícone – Bandeira Tribuzi.

Autor de uma riquíssima produção poética e intelectual, Tribuzi soube, como poucos, captar a alma da cidade - e ficou para sempre indelevelmente associado à própria idéia do que seja São Luís.

A seguir, um trecho luminoso do seu poema Longo Memorial do Breve Tempo, escrito em janeiro de 1977 – poucos meses apenas antes de sua morte. Depois, seu hino de amor à Cidade, logo transformado no Hino de São Luís.

(...)

Ò que saudade
de palmeiras e pássaros
da viagem do trem lento e difícil,
do bonde a burro,
da balsa sobre o rio
e do leite mugido
e da jibóia flutuando
com o boi apresado,
do roteiro, a cavalo, pra fazenda
e da surpresa
dos corpos femininos nus no rio
(alguma coisa em mim vibrando sinos
pela adivinhação de futuros delírios!)
e a tepidez das águas sob a sombra
de árvores generosas;
e as tardes dos primos no balanço
das rangentes redes.


Louvação a São Luís

Ó minha cidade...
Deixa-me viver
que eu quero aprender
tua poesia
sol e maresia,
lendas e mistérios
luar das serestas
e o azul de teus dias
Quero ouvir a noite
tambores do Congo
gemendo e cantando
dores e saudades
A evocar martírios,
lágrimas e açoites
que floriram claros
sóis da liberdade!
Quero ler nas ruas
fontes, cantarias
torres e mirantes
igrejas, sobrados
nas lentas ladeiras
que sobem angústias
sonhos do futuro
glórias do passado.


   
 
   
  [Escrito às 10h25min]   [Foto: Bandeira Tribuzi]
   
  25/08/2008
 

REGISTROS IMPORTANTES

Pela crença popular, agosto é o mês do desgosto – para a memória da cultura maranhense, no entanto, esse mês de fama tão pouco lisonjeira assinala duas passagens de imensa relevância.

A primeira: 10 de agosto de 1823, data do nascimento, em Caxias, Maranhão, de Antônio Gonçalves Dias, um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos.

Sobre esse poeta maior, que tocou profundamente a alma brasileira e que ainda hoje é declamado e aclamado – quem não sabe de cor os versos da Canção do Exílio, talvez o mais parodiado e imitado poema da nossa literatura? – escreveu o poeta José Chagas:

A ilha aguarda a vinda de um navio
que nunca mais há de chegar ao porto,
porque lhe pesa no convés sombrio
a alma leve de um poeta morto


Refere-se Chagas às circunstâncias da morte de Gonçalves Dias, que, doente, regressava a São Luís quando o navio em que viajava, o Ville de Boulogne, naufragou nos baixios dos Atins, em Guimarães, Maranhão, em 13 de novembro de 1864. Muito fraco e abatido na ocasião, o poeta foi o único que não conseguiu se salvar – e fica o gosto amargo de não ter sido concedido a ele, como pedira, não morrer sem ter conseguido voltar para a terra ‘onde canta o sabiá.’

Abaixo, a transcrição de Nelson Archer, para o inglês, da Canção do Exílio :

The song of exile

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunklen Laub die Gold-Orange glühen?
Kennst due s wohl? – Dahin, dahin!
Möchtl ich…zeihn.
Goethe

My homeland has many palm-trees
and the thrush-song fills its air;
no bird here can sing as well
as the birds sing over there.

We have fields more full of flowers
and a starrier sky above,
we have woods more full of life
and a life more full of love.

Lonely night-time meditations
please me more when I am there;
my homeland has many palm-trees
and the thrush-song fills its air.

Such delights as my land offers
Are not found here nor elsewhere;
lonely night-time meditations
please me more when I am there;
My homeland has many palm-trees
and the thrush-song fills its air.

Don't allow me, God, to die
without getting back to where
I belong, without enjoying
the delights found only there,
without seeing all those palm-trees,
hearing thrush-songs fill the air
.

A segunda passagem: no mesmo dia 10 de agosto, só que de 1908, um grupo de doze intelectuais maranhense se reuniu no salão de leituras da então Biblioteca Pública de São Luís e ali resolveram fundar a Academia Maranhense de Letras – que está, neste mês de agosto de 2008, em plena efervescência das comemorações de seu centenário.

 
   
  [Escrito às 08h27min]   [Foto: Gonçalves Dias]
   
  06/08/2008
 

UMA DISTINÇÃO IMPORTANTE

Na última quinta-feira, dia 31 de julho, São Luís foi eleita a Capital Brasileira da Cultura 2009, numa acirrada disputa com Areia, da Paraíba; Mariana, de Minas Gerais; Montenegro, do Rio de Janeiro; e Senador Pompeu, do Ceará.

Em sua quarta edição, o Concurso já elegeu Capital Brasileira da Cultura as cidades de Olinda, em 2006; São João del-Rei, em 2007; e Caxias do Sul, em 2008.

Em tempo: uma coincidência tornará ainda mais significativa a importância dessa conquista - é que 2009 será também o ano da França no Brasil, e São Luís é a única capital brasileira fundada por franceses.

 
   
  [Escrito às 18h40min]   [Foto: Praia Grande, acervo do Museu de Imagens do Patrimonio]
   
  24/06/2008
 


SOBRE O SÃO JOÃO...

Um dos mais tradicionais folguedos do Nordeste brasileiro – e do Maranhão em particular –, a festa de São João, comemorada hoje, dia 24 de junho, tem origem européia e em seus primórdios está relacionada com a festa pagã do solstício de verão assinalado no calendário juliano.

Posteriormente, com o advento do cristianismo e sua consolidação como religião predominante da Europa na Idade Média, a data passou a ser associada à festa de São João – em referência a São João Batista, pregador que antecedeu Jesus Cristo e O batizou.

No Nordeste do Brasil, cuja característica mais marcante é a aridez da terra, a população agradece as chuvas que caem por essa época, vicejando as lavouras e propiciando a colheita do milho – daí porque as comidas típicas da festa junina são a canjica e a pamonha.

... E UM REGISTRO

Cinqüenta anos atrás, o Brasil vencia sua primeira Copa do Mundo, na Suécia.

Esperamos que a data e o significado que ela guarda para o esporte brasileiro possa inspirar a atual seleção de futebol a jogar com um pouco mais de amor à camisa.

 
   
  [Escrito às 11h00min]   [Quadro: São João Batista, de Andrea del Verrocchio e Leonardo da Vinci]
   
  13/06/2008
 


SEXTA-FEIRA,13


Fim de tarde - e depois de quase três dias ausente, o sol está brilhando - tímido e pálido, é verdade, mas brilhando.

E em homenagem ao sol que finalmente reapareceu,o Soneto Corporal, de Bandeira Tribuzi:

Nesta manhã, que o sol torna madura,
o vento forte passa contra a vida.
Leve, o rumor das águas tudo banha
e a música das cores vem subindo.

De pé no campo, como se crescera
dele também, um corpo de homem está
com sua carne morena e a cabeça
coroada de cabelo e pensamentos.

Junto de si a companheira guarda
a cadeia da vida. Suas curvas
são convite à carícia e profecia.

E o sol, que amadurece esta paisagem,
vai desatando a vida que o aguarda
ao mesmo tempo que desata o dia.


 
   
  [Escrito às 17h30min]
   
  05/06/2008
 

QUASE CONCLUÍDA

Está quase concluída a reforma de um dos mais importantes sítios históricos de São Luís, a Fonte das Pedras – local onde, em 1615, acamparam as tropas de Jerônimo Albuquerque na campanha contra os franceses pela retomada do Maranhão.

Orçada em trezentos e noventa e cinco mil reais, a reforma recuperou todo o jardim em volta da Fonte, os muros e o frontão de alvenaria. Em breve o Patrimoniodahumanidade.com publicará uma nova galeria de fotos do local.

 
   
 
   
  [Escrito às 10h30min]     [Leia mais sobre a Fonte das Pedras clicando aqui]
   
  26/05/2008
 

JUNHO ESTÁ CHEGANDO


Estamos na última semana de maio e, pela Ilha Grande do Maranhão, já se começa ouvir o som das toadas do bumba-meu-boi sendo ensaiadas.

Quando junho chegar com seu céu azul profundo e noites de brisa suave, as matracas e os padeirões irão marcar o ritmo perfeito e envolvente com que os bois evocam a própria alma do Maranhão.

E para esta segunda-feira de antecipações, um poema de Laura Damous.

GUARNICÊ DA MEMÓRIA

Não importa que as matracas
se dispersem
o ritmo
desde aos pés
na marcação exata
Não importa que as vozes
se percam
As toadas se eternizam
na ressonância das noites
Não importa que esse boi
se canse
Ficará brincando nos teus olhos
Sempre

 
   
  [Escrito às 17h45min]    [Foto: boi, do acervo da Casa do Maranhão]
   
  12/05/2008
 

PERDA

Faleceu no Rio de Janeiro, aos 89 anos, o poeta maranhense Manuel Caetano Bandeira de Mello.

Ocupante da cadeira nº. 11 da Academia Maranhense de Letras, Bandeira de Mello nasceu em Caxias, Maranhão, no dia 30 de junho de 1918, e já aos dezessete anos iniciou sua carreira no jornalismo, ao mesmo tempo em que lançava seu primeiro livro, Estética na obra de Machado de Assis.

Contemporâneo de Josué Montello, mudou-se em 1938 para o Rio de Janeiro, onde foi redator-chefe da Gazeta de Notícias. Colaborou intensamente no Dom Casmurro, jornal literário de maior prestígio na época.

Formado em Direito, ingressou no serviço público federal e, durante a Segunda Grande Guerra, foi correspondente das agências de notícias Havas e Reuters.

A seguir, um poema de Bandeira de Mello, publicado em 1960 no livro A Viagem Humana.

A Mulher

Comunicante com as árvores
da lua
contra os segredos misteriosos
que na fuga entremostras àqueles que fascinas

tens a intimidade da alma dos mortos
vagueias pelo mundo do desterro
com chama oculta indiferente
ao sopro de nossas tempestades

As dores no teu seio curvam as formas da graça
mesmo o fechar dos olhos é reacendê-los
em outros campos da luz que recebeste

quando comburida com o nosso convívio
para outro fascínio renasceres
daquele que pensarem que um dia tu morreste


 
   
  [Escrito às 10h00min]    [Gravura de Gustav Klint]
   
  19/03/2008
 

REGISTRO

Será celebrada hoje em São Luís, às 18h00min, uma missa coletiva na Igreja dos Remédios em memória do escritor Josué Montello, falecido aos oitenta e nove anos no dia 15 de março de 2006 na cidade do Rio de Janeiro, vítima de insuficiência cardíaca e pneumonia.

Considerado um dos maiores escritores do Brasil de todos os tempos e autor de uma obra que abrange mais de cento e sessenta títulos, Montello foi membro das Academias Brasileira e Maranhense de Letras, além de professor e ocupante de diversos cargos públicos de relevância no Brasil, tais como o de diretor geral da Biblioteca Nacional e de subchefe da Casa Civil da Presidência da República.

Para ler mais sobre o poeta, teatrólogo, romancista, cronista, orador, jornalista, memorialista, ensaísta e historiador maranhense, clique aqui.

 
   
  [Escrito às 11h20min]  [Veja também: Praça Gonçalves Dias]
   
  07/03/2008
 


HOMENAGEM


Para o Dia Internacional da Mulher, 08 de março, nossa homenagem.

Pulsa no ambíguo movimento
Uma tensão de músculos exatos
Pele lisa de perfume próprio
E tons marfíneos -
A mulher se espraia em enigmas azuis
Se esconde em um sorriso
De menina travessa
Faz pose e volteia
Sobre si mesma
Feito um caldaloso
Córrego

E brilha

          ****

Conhecer a Aurora
através dos olhos
de uma mulher -
da mulher que se ama -
é nascer de novo
para o mundo

 
   
  [Escrito às 20h10min]   [Quadro o Nascimento de Vênus, de Botticelli]
   
  25/02/2008
 

UM POEMA

Para começar a semana, a densa e reflexiva poesia de Nauro Machado.

CONDIÇÃO HUMANA

Um homem no mundo
sozinho se arrasta
sem mão que o sustente

como a uma hóstia.
Um homem sozinho
em ruas se arrasta.

O tempo o alimenta
e a impiedade o nutre
no choro de pedras.

Um homem. Apenas
ninguém lhe virá
agora ou nunca.

   
  [Escrito às 09h30min]
   
  15/02/2008
 

O TEMPO ANTES DO TEMPO II

Começava enfim a arrefecer o período dos grandes terremotos que haviam sacudido a Terra e aniquilado vastas porções dos continentes.

O norte do Brasil, naquele início do Terciário - período da historia geológica do planeta que se estendeu de 65 a 1,8 milhões de anos atrás –, estava sendo gradualmente aplanado pela ação natural dos ventos e das águas.

Arbustos enfezados, muito semelhantes aos que existiam no Cretáceo, pontuavam a paisagem. Os dinossauros já estavam extintos - vitimados pelo avassalador cataclismo que consumira seu mundo -, mas a vida vicejava por toda parte, com os mamíferos e as aves iniciando seu domínio.

Ao largo, os oceanos avançavam e recuavam continuamente, ao sabor do maciço movimento de deriva dos continentes e pelas modificações em escala global do clima do planeta: ainda eram bastante freqüentes as erupções vulcânicas devastadoras, que lançavam na atmosfera milhares de toneladas de poeira que encobriam o sol e baixavam as temperaturas, contribuído para a formação das glaciações e das chuvas intensas.

Os registros dessa época podem ser encontrados nas rochas que compõem a Formação Barreiras do Nordeste do Brasil, e, no Maranhão, na região do Farol de Itacolomi, no município de Alcântara.

 
  [Escrito às 17h00min]    [Casario, Alcântara, Maranhão]
 

  06/02/2008
 


VIEIRA 400 ANOS


Neste dia 06 de fevereiro de 2008, comemora-se os quatrocentos anos do nascimento de uma das maiores figuras da histórial colonial brasileira: Padre Antonio Vieira.

Personagem intimamente ligado à história do Maranhão, padre Vieira deixou em sua passagem pelo Estado um eloqüente testemunho de sua vocação missionária - para saber mais detalhes sobre o assunto, leia o perfil publicado em nossa seção Personagens da Cidade. Clique aqui.
.

 
  [Escrito às 15h00min]
   
  29/01/2008
 

O TEMPO ANTES DO TEMPO

Três bilhões de anos atrás, no período geológico denominado Arqueano, o jovem planeta Terra apresentava-se inóspito, convulsionado, pouco generoso com qualquer tipo de possibilidade de vida.

Os terremotos e as erupções vulcânicas eram terríveis e freqüentes. As placas tectônicas, porém, tinham esfriado e formado a litosfera sólida – todos os continentes hoje existentes estavam então unidos numa grande e contínua porção de terra, chamada Pangea, cercada por um oceano agitado, varridos por violentas tempestades de raios, assolado por maremotos e furacões constantes.

No Maranhão, o testemunho dessa Era ficou registrado nos corpos de rochas que integram o chamado Complexo de Maracaçumé, e que abrange ainda os municípios de Rosário, Bacabeira e Axixá, entre outros.

Mais ou menos nesse mesmo período, individualizou-se o Craton – assim chamada a porção bastante antiga da crosta continental – onde, bilhões de anos depois, foi fundada a cidade de São Luís do Maranhão.

   
 
  [Escrito às 14h30min]    [Mapa ilustrativo da Pangea]
   
  18/01/2008
 

NOTAS


Sexta-feira chuvosa em São Luís – parece que, finalmente, começou para valer a ‘estação das águas’.

                                                      ****

Num mês tradicionalmente morno em termos de movimentação cultural, uma boa notícia: o lançamento, hoje, do novo livro do poeta Luís Augusto Cassas – Evangelho dos peixes para a ceia de aquário.

Nascido em São Luís do Maranhão em 02 de março de 1953, o poeta é autor de uma obra cheia de vertentes, multifacetada. Sobre ele, escreveu o ensaísta Marco Luchesi:

“A poesia e os céus guardam infinitas surpresas. E sempre movidas por sentimentos de piedade e ousadia, amor e ódio, inteligência e sensibilidade. Vejo Luís Augusto Cassas nesse movimento. E não me resta senão cumprimenta-lo efusivamente”.

Do novo livro do poeta, um trecho escolhido:

MEDITAÇÃO DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

fogo sagrada da vida
santuário do puro amor
chaga da sabedoria
chama do céu interior

- que luz brilhais no sacrário
farol do humilde e exaltado?
- sede revolucionários
jamais revoltados!

- como refletirmos as flores
do teu arco-íris fecundo?
- substituindo as vossas dores
pelos martírios do mundo!


                                                  
***

Amanhã, dia 19 de janeiro, o município de Guimarães, situado, por mar, a cinqüenta e cinco quilômetros de São Luís, completará 250 anos de fundação.

De terras férteis e clima ameno, Guimarães é conhecido pela riqueza de suas águas costeiras, abundantes de pescado.

É, também, a pátria de um dos maiores e mais originais poetas brasileiros do século XX – Sousândrade, autor, entre outras obras-primas, de O Guesa.

Abaixo, o

ELOGIO DO ALEXANDRINO

Asclepiádeo verso: à evolução do poema
Das sestas, cadenciar d'altas antigüidades,
já porque bipartido em fúlgidas metades
Reata em conjunção opostos de um dilema,
E já por ser de gala a forma do matiz
Heleno na escultura e lácio na linguagem
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d'alva,
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza,
o verso-formosura, adornos, lauta mesa
Ond' tokay, champanh', flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding.
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante:
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;
E para os que têm fome e sede de justiça,
O verso condor, chama, alárum, de carniça,
D'harpas d'Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:
Que, embora contra um deus "Figaro" impiedade
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major,
Restruge alto acordando os cândidos espíritos
À s glórias do oceano e percutindo os gritos
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.

   
 
  [Foto: Sousandrade]   [Escrito às 15h40min]   [Leia mais sobre Sousandrade clicando aqui]
   
  07/01/2008
 


VOLTANDO DAS FÉRIAS

Foram dez dias de recesso para repor as energias, mas agora estamos de volta.

E voltamos com muitos planos para o site – do layout que pretendemos repaginar ao acréscimo de novas e surpreendentes seções: afinal de contas, 2008 é um ano que promete muito, e embora ao longo de sua jornada tenhamos flores e espinhos, céu de brigadeiro e tempestades tropicais, esperamos sinceramente que todos nós possamos apreciar tranquilamente uns e passar incólume pelos outros.

Então, carpe diem - aproveite o dia, pois o dia é o fruto maduro onde a vida pulsa e você está vivo.

Equipe Patrimônio

   
 
  [Escrito às 19h15min]     [Quadro: Idle Hours, 1894 de William Merrit Chase]






330 anos da Diocese do Maranhão

A Praia Grande
Josué Montello
A Fonte das Pedras
   
  Retorna Principal






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