Josué de Sousa Montello nasceu em São Luís
do Maranhão no dia
21 de agosto de 1917, filho de Antônio Bernardo Montello
e Mância
de Souza Montello.
Dono de uma biografia que é verdadeiro marco intelectual
do Brasil no século XX, Montello foi um aluno extremamente
aplicado desde a mais tenra infância: fez o curso primário
na Escola Modelo Benedito Leite e o secundário no
Liceu Maranhense, onde se destacou como primeiro aluno da
turma.
Foi também no prestigioso
Liceu que iniciou sua carreira de agitador cultural - dirigiu
A Mocidade, e
publicou nesse periódico voltado para a juventude os seus
primeiros trabalhos.
Com apenas quinze anos de idade, Montello passa a integrar
a Sociedade Literária Cenáculo Graça
Aranha, em torno da qual gravitavam os novos escritores maranhenses
ligados ao modernismo.
Por essa época, começa a atuar na imprensa,
colaborando assiduamente com os jornais A Tribuna, a
Folha do Povo e O
Imparcial.
Por conta desse engajamento no jornalismo,
dedica-se com mais afinco ainda à leitura e ao aprimoramento
de sua técnica literária. É um estudioso
compulsivo. Em 1936 parte de São Luís e, depois
de uma rápida passagem
por Belém - onde deixa sua marca na imprensa da cidade,
assinando várias matérias para revistas e jornais,
sobretudo O Estado do Pará - segue para o Rio de Janeiro,
onde fixa residência
no final daquele ano.
Na então capital federal do Brasil, Montello logo
se integra a
um grupo de escritores reunidos em torno do semanário
Dom Casmurro, especializado em literatura. É uma fase
em que produz intensamente: artigos, crítica teatral
e mais uma imensa variedade de matérias para o próprio
Dom Casmurro e uma série de outras publicações,
tais como Ilustração Brasileira,
O Malho e suplementos dominicais do Diário de
Notícias e
do Jornal do Commercio, entre outros. Paralelamente à atividade
jornalística, ele é nomeado inspetor federal
do Ensino Comercial e, em 1938, com a tese "O sentido
educativo da arte dramática",
obtém destacada classificação no concurso
para técnico de
educação do Ministério da Educação.
Em 1941, aos vinte e quatro anos, lança seu primeiro
romance:
Janelas Fechadas, obra ainda da juventude, mas
onde já
demonstra, além da prosa límpida e harmoniosa,
consumada maestria no desenvolvimento da trama, na fixação
dos personagens e do cenário - um ambiente tranqüilo,
plácido, quase contemplativo.
O âmbito das realizações de Montello é impressionante.
De professor do curso de Organização de Bibliotecas
do Departamento Administrativo do Serviço Público, é convidado
por Rodolfo Garcia, diretor geral da Biblioteca Nacional,
para planejar
uma ampla e profunda reforma nesse importante instituto.
Aceita o desafio na hora. Corria o ano de 1944, e embora
assoberbado pelas muitas tarefas administrativas e pedagógicas,
ele ainda havia achado tempo para publicar dois ensaios de
considerável alcance - Gonçalves Dias,
de 1942, e Histórias
da Vida Literária, de 1944 - e escrever a peça
de teatro Precisa-se de um Anjo, encenada em 1943,
mas inédita
em livro.
Diligente, incansável, Montello estabeleceu as modernas
bases dos cursos da Biblioteca Nacional - primeiro como coordenador
e logo depois como diretor -, além de ensinar Literatura
Portuguesa no curso superior de Biblioteconomia. A essa altura,
já é considerado pelos colegas e admiradores
um verdadeiro scholar: seus múltiplos interesses,
a pesquisa constante, a aplicação quase beneditina à leitura
crítica e às letras,
transformam-no num artífice da cultura. Seu conhecimento
é surpreendente em todos os campos.
Em 1946, a convite do governo maranhense, elaborou um plano
para a reforma do ensino primário e normal do Estado, a seguir
convertido em lei. Atuou, também, como secretário-geral do
Maranhão durante a interventoria de Saturnino Belo. No ano
seguinte,
é nomeado diretor geral da Biblioteca Nacional, onde
imprime uma série de formidáveis ações revitalizadoras, além
de promover
restaurações nas suas coleções mais valiosas - como as de
gravuras originais de Albert Duhrer - e grandes exposições
temáticas,
como a Goethiana.
Durante todo esse agitado período, dando mostras de
sua imensa capacidade administrativa e artística,
Montello acumula a direção do Serviço
Nacional do Teatro e não pára de publicar:
lança a obra historiográfica Os holandeses
no Maranhão (1945),
a peça Escola da Saudade (1946) e aventura-se
com igual sucesso pela literatura infanto-juvenil com O
Tesouro de Dom José (1944), As Aventuras
do Calunga (1945), O Bicho
do Circo (
1945) e A Viagem Fantástica (1945).
A convite do Itamaraty, segue em 1953 para a cidade de Lima,
Peru, onde fica encarregado de inaugurar a cátedra
de Estudos Brasileiros da Universidade Nacional Mayor de
San Marcos
- a mais antiga do continente, fundada em 1551 -, tornando-se
seu primeiro professor. Nos dois anos em que permanece na
capital peruana, organiza a primeira Exposição de Livros
Brasileiros e escreve a peça O Verdugo (1954),
que no ano seguinte, por iniciativa do diretor Pedro Jarque
y Leiva, abre a temporada de espetáculos do Teatro Universitário
da
Universidade de
San Marcos.
É um tempo de conquistas memoráveis para Montello: recebe
o título de Catedrático Honorário da Universidade San Marcos
e torna-se colaborador permanente do Jornal do Brasil,
onde mantém uma coluna semanal até 1990. Escreve também para
diversas
publicações da poderosa Editora Bloch - controladora, entre
outras, da revista Manchete, uma das mais influentes
do Brasil à época. Com regularidade surpreendente, ele não
pára de
publicar: vêm a lume os romances A Luz da Estrela
Morta,
1948, e Labirinto de Espelhos, 1952; os ensaios Histórias
da Vida Literária, 1944, Hamlet de Antonio
Nobre, 1949
e Cervantes e o Moinho de Vento, 1950; e a novela O
Fio da Meada, 1955.
A obra construída por Montello até aquele momento de sua
carreira é assombrosa, pois abrange uma significativa variedade
de meios de expressão - do romance ao teatro, do artigo jornalístico
ao ensaio histórico. Sua prosa é elegante e fluída, passando
ao leitor aquela enganadora sensação de ter sido escrita
de forma ligeira, fácil, sem esforço aparente. Sua sólida
formação intelectual se faz sentir em todos os ensaios e
artigos, sempre permeados por análises precisas,
argutas e diretas, ao passo que nos romances e peças teatrais
a fina
sensibilidade do artista impõe uma intensa abordagem psicológica
das tramas e dos personagens.
A quantidade de títulos lançados por Montello é também motivo
de espanto, ainda mais quando se leva em consideração o fato
de que o autor se ocupava de várias outras atividades que
não apenas a literatura, e mal havia chegado aos 38 anos
de idade. Seus muitos lançamentos alcançam repercussão nacional
e as premiações se acumulam: Prêmio Silvio
Romero de Crítica e História, recebido
em 1945; Prêmio
Arthur Azevedo de Teatro, da Academia Brasileira, 1947; e o Prêmio
Coelho Neto de Romance,
da Academia Brasileira, em 1953.
No dia 04 de novembro de 1954, é eleito para ocupar a Cadeira
nº. 29 da Academia Brasileira de Letras - figurando como
o mais jovem integrante daquela instituição em toda a sua
história. É
a consagração, mas está longe de ser o ápice de sua carreira
literária. Por outro lado, sua consumada competência administrativa
vale o convite para ocupar o cargo de subchefe da Casa Civil
da Presidência da República em 1956, início
da era JK. No ano seguinte, é designado pelo Itamaraty para
reger a cátedra de Estudos Brasileiros da Universidade de
Lisboa, função que desempenha com o brilhantismo de sempre
- tanto que o Instituto de Cultura Hispânica leva-o para
a Espanha, onde ministra um curso de literatura brasileira
na Universidade de Madri.
Sempre em busca de novos desafios, Montello
não perde o fôlego com o passar dos anos: organiza e
instala o Conselho Federal de Cultura e o Museu Histórico
e Artístico do Maranhão, é conselheiro cultural da embaixada
do Brasil em Paris, fundador e reitor da Universidade Federal
do Maranhão, embaixador do Brasil junto a UNESCO
e presidente
da Academia Brasileira de Letras.
Afável no trato,
de conversa fácil e finamente articulada, ele foi um
homem forjado pelo tempo e por si próprio
- algo raro de acontecer em qualquer lugar ou época, e que
por isso mesmo torna lendárias figuras dessa estirpe. Suas
qualidades pessoais, assim como as artísticas, eram muitas
e variadas, e o amor que devotava ao Maranhão, simplesmente
comovente - tanto que sua terra natal é o grande cenário
de quase toda a sua obra ficcional.
Integrando um dos mais férteis períodos da literatura brasileira
posterior à semana de Arte Moderna, chamado de ciclo do
romance nordestino, Montello, ao contrário da grande maioria
de seus colegas de geração, voltou-se para o romance citadino
ao estilo de Machado de Assis. Dessa forma, valendo-se de
um estilo clássico e sumamente elegante de escrever, ele
reconstrói com maestria e densidade psicológica toda a arquitetura
de vida de um tempo que passou, como bem se vê em sua indiscutível
obra-prima, Os Tambores de São Luís,
de 1975 - o grande romance brasileiro sobre a escravidão.
Josué Montello, após longa enfermidade, faleceu no Rio de
Janeiro no dia 15 de março de 2006, aos 88 anos.