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Escrito entre maio e outubro de 1975, o Poema Sujo de Ferreira Gullar é um marco na poesia brasileira do século XX.

Lírico, trágico, agressivamente belo em sua rude linguagem, o Poema é uma obra que reflete sem piedade ou meias palavras a situação limite atravessada pelo poeta naquele momento de sua vida - o duro exílio em Buenos Aires, as dificuldades cotidianas, a indignação e a perplexidade com o rumo político tomado pelo Brasil depois do golpe militar de 1964.

Experiência única na carreira de Gullar pela forma como foi escrito - praticamente de um só fôlego -, o Poema é sem dúvida alguma a sua obra mais ousada, e assinala a superação de todos os impasses que antes o impediam de realizar uma poesia de primeira grandeza.

É um salto estético fenomenal.

Poeta já consagrado na década de 70, Gullar transitara, ao longo de uma carreira iniciada em 1949 com o lançamento de Um Pouco Acima do Chão, por múltiplas vertentes poéticas. Dono de uma voz poderosa e de um apurado senso crítico, sua obra foi moldada, ao longo dos anos, por uma atitude de constante insubordinação. Assim, não causa estranheza que, depois de flertar algum tempo com a mais engajada e polêmica das vanguardas literárias do Brasil no final dos anos 50, o concretismo, tenha ele se fechado numa atitude de total recusa ao formalismo professado por essa mesma vanguarda e enveredado pela poesia participante, marcada por um forte viés político. Nesse ponto, ocorre o impasse crucial em sua trajetória - embora apoiada numa refinada estrutura interna, sua obra perde muito da força original e passa a ter um incômodo tom de transitoriedade, salvo alguns poucos poemas de excepcional valor, marcados por um tom intimista e confessional, tais como Praia do Caju, Uma Fotografia Aérea e A Casa.

No plano pessoal, a vida do poeta havia mergulhado em convulsão: é preso em 1968, logo após a assinatura do AI nº. 5, e depois de um tempo vivendo na clandestinidade, parte finalmente para o exílio - Moscou, Santiago do Chile, Lima e, por fim, Buenos Aires.

É uma época de profundo desalento - a morte do pai, ocorrida em 1971, os problemas familiares, a falta de recursos, o sobressalto constante. Apenas 'uma clandestina esperança', como diz no poema A Vida Bate, o sustém.

Em seu livro Lyric und Gessellschat, T. W. Adorno observa que toda grande poesia é associal, ao mesmo tempo em que aponta um paradoxo interessante: os poetas associais são os que exprimem com maior exatidão o momento, a situação da sociedade em que vivem.

Por forças das circunstâncias, Gullar tornara-se, ao longo daqueles anos de dor, numa espécie de poeta associal: exilado, perseguido, cheio de problemas e dificuldades, afastado de tudo e de quase todos.

Então, acontece a verdadeira tempestade poética: num jorro caótico de imagens, o poeta resgata, ao longo de poucos meses marcados por um trabalho intenso e rascante, toda a energia de uma época, de um tempo vivido - e esse feito vai muito além da evocação da infância ou do simples rememorar dos anos perdidos na poeira brilhante do passado. Gullar mergulha profundamente em sua experiência de vida, na infância e na adolescência passadas em São Luís, e daí surge com um retrato existencial eivado de angústias e esperanças, de tormentos e de momentos sublimes.

Nessa pungente evocação da São Luís provinciana dos anos 40 do século XX, ergue-se, portanto, não apenas o drama humano e seu contexto histórico, mas a grande inquietação de Gullar sobre a essência da própria vida - sua precariedade, sua força cambiante, sua permanência. Persegue-o a noção aterradora de que, mais cedo ou mais tarde, tudo passa - tudo se perde.

Para expressar com precisão a força de tantos sentimentos e as inúmeras passagens de forte cunho existencial, marcadas quase sempre por um tom febril e urgente, Gullar utiliza-se de um recorrente jogo de antíteses - alto versus baixo, quente versus frio etc - para justamente ressaltar a ambigüidade da emoção que os despojos do passado despertam em seu espírito. A quase ausência de pontuação, por outro lado, permite a fusão de blocos aparentemente desconexos de imagens, induz o leitor a fazer associações surpreendentes entre elementos dispersos, e o texto flui de forma irresistível pelo realce individual que cada palavra alcança.

O Poema Sujo foi publicado no Brasil em 1976, ainda no período mais fechado da ditadura militar, mas desde seu lançamento se impôs pelos méritos indiscutíveis. E sobre Gullar, Paulo Mendes Campos já disse muito a propósito que: "Esses três títulos (A Luta Corporal, Dentro da Noite Veloz e Poema Sujo) bastam para sustentá-lo no alto, entre os mais alto da poesia brasileira."


Veja também
 
 [Trecho do Poema Sujo]

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