As Casas de Deus são humildes. As casas dos homens são
suntuosas.
Quando cai a tarde em São Luís do Maranhão,
as fachadas das Casas de Deus alongam as sombras que surgem do
coração da terra. As casas dos homens, por seu turno,
refulgem no esplendor do poente a secular beleza de seus azulejos
finamente decorados em auto-relevo.
Não é mistério ou segredo que o ardor religioso
nunca foi generalizado no povo da Ilha Grande - muito antes do
Marquês de Pombal tomar birra dos jesuítas, e expulsá-los
do Reino e de todas as suas possessões d' Além Mar,
eles aqui já não eram bem-vindos, tendo sido postos
para fora várias vezes à força de insurreições
populares - ousaram opor-se à escravidão dos índios,
cujos braços eram tão necessários nas lavouras
dos colonos.
Cidades como Salvador e Mariana exibem do seu passado colonial
o tributo devido ao temor de Deus. Seus templos são amplos
e ricamente decorados, os altares, verdadeiras jóias incrustadas
em ouro velho. As Casas de Deus são as que refulgem, suntuosas.
As casas dos homens, em contrapartida, são humildes e perdem
feio se a Elas forem comparadas - mesmo as mais ricas.
Na Ilha Grande, as Casas de Deus são ricas, majestosas e
belas - isso é preciso que se diga: são belíssimas.
Mas as casas dos homens são ainda mais belas. São
ainda maiores. Mais bem adornadas. Senhoriais.
Entre as Casas de Deus e as casas dos homens, os passeios possibilitavam
uma jornada tranqüila do paraíso na terra para o desejo
de Céu. Não eram praças, como hoje em dia
dia se diz, mas passeios: tocados pelo frescor da brisa, ornados
de árvores, flores e caramanchões, elegantes bancos
de pedra - surpreendentemente confortáveis -, gramados bem
cuidados, belos chafarizes. Fazia gosto cruzá-los vagarosamente,
ou ficar um pouco mais por ali, mesmo que isso significasse chegar
depois da missa ter começado. Os homens quase nunca se apressaram
para Deus.
Em São Luís do Maranhão, muitos dos monumentos
amados pelos homens passaram, assim como suas casas suntuosas.
Mas se aqui as Casas de Deus são humildes, Elas, no entanto,
permanecem de pé.
Respiram o Eterno.
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