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Em seu Poema Sujo, Ferreira Gullar diz que "a cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa." De fato, uma cidade é mais que um conjunto de ruas e casas, de prédios, calçadas, monumentos, de praças e largos. Uma cidade é, antes de tudo, a fiel depositária das lembranças do homem, e seus caminhos guardam os sonhos, os risos e as lágrimas de gerações que nela existiram e que, por seu turno, a fizeram existir também.

Percorrer as ruas de São Luís é ouvir, de certa forma, o testemunho dessas gerações, é conhecer o legado que elas deixaram: datas, nomes, acontecimentos, juras de amor, clamores de júbilo, dor ou revolta adquirem então um sentido real, profundamente humano e, portanto, profundamente nosso - não importando muito de que lugar tenhamos vindo ou para onde iremos depois.

Este roteiro das ruas de São Luís falará necessariamente dessas datas, nomes, fachadas de azulejos, calçadas altas, batentes de cantaria, muros, jardins onde amantes há muito desaparecidos suspiraram, um dia, suas paixões. É o que se espera dele, afinal de contas - mas todos esses dados, em si mesmos, não passam de silêncio e de sombras aceleradas, se dissociados do verdadeiro encantamento.

E de qual encantamento estamos falando?

Fácil - estamos falando daquele encantamento que não está congelado nos livros de história ou nos roteiros turísticos, mas sim vivo e pulsando nas ruas, ao alcance dos olhos e do toque, da memória que tudo contém.

Por isso é que as ruas de São Luís pedem um passeio tranqüilo, sem pressa, mas de olhos sempre atentos aos detalhes - então tudo fará sentido: a dor do poeta que naquela esquina declamou seu soneto de amor mais arrebatado e não foi correspondido por sua musa, o choro do escravo açoitado no pelourinho, ou o sacrifício dos homens que mais adiante tombaram em batalha, defendendo o direito de serem livres.

A verdadeira alma de uma cidade como São Luís é a que se apreende em suas ruas - legado constantemente enriquecido por seu povo.

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