Por
um período de mais de cento e sessenta anos depois da fundação
de São Luís, a Praia Grande permaneceu um grande
pântano
fétido, sulcado de muitos olhos d'água e invadido
pelas marés duas vezes por dia.
O local era então terrivelmente insalubre: cheio de lama,
entremeado por longos trechos de mato enfezado, mangue e extensos
juçarais. Por ser um baixio acentuado, para lá convergiam
as águas servidas da Rua do Giz e da Rua da Estrela. Durante
as chuvas, verdadeiras cascatas se formavam, descendo em grossas
correntes das ladeiras que ficavam próximas.
Ainda assim, servia de porto para a cidade, que naquela época,
diga-se de passagem, se comunicava com o mundo exclusivamente pelo
mar.
Os navios de grande porte ficavam ancorados ao largo, na enseada
formada pelos rios Anil e Bacanga, mas as mercadorias e os passageiros
que chegavam tinham de desembarcar ali - enquanto as damas eram,
via de regra, carregadas em banquinhos até a segurança
da terra firme, mais de um cavalheiro sujou as botas naquele lodaçal
sem fim.
As canoas e os barcos pequenos, por seu turno, simplesmente embicavam
na direção da terra, tentando chegar o mais longe
possível, só que invariavelmente precisavam descarregar
nas costas dos escravos o que quer que trouxessem como mercadoria
- um trabalho sujo, pesado e feito sob terríveis condições
de risco. Muitos escravos se feriam seriamente ou morriam esmagados
debaixo dos fardos que carregavam, vítimas de um mau passo
dado no terreno escorregadio. Outros pereciam afogados na lama.
Quem primeiro se preocupou em mudar esse quadro desolador foi D.
Antonio Sales de Noronha, capitão-general do Maranhão
entre 1779 e 1784, mas, apesar de toda boa vontade, a única
resolução administrativa que ele pôde efetivamente
tomar foi a de enviar a Portugal uma planta onde estavam detalhadas
as obras de aterro pretendidas para a Praia Grande. Muito parcimoniosa
nos investimentos feitos em suas colônias, Lisboa quis
saber se não havia interessados em arcar com os custos
da construção
daquele Terreiro Público, como passou a ser denominado,
onde seria possível estocar e vender à população
da cidade toda sorte de gêneros demandados.
Aparentemente a resposta dada a essa pergunta foi não,
o que implicava dizer que todo o ônus da empreitada ficaria
mesmo por conta da Fazenda Real. Não é de se estranhar,
portanto, que a ordem autorizando a realização do
serviço levasse dezoito anos para ser dada, sendo ainda necessários
outros seis para que ele finalmente saísse do papel. Corria
já o ano de 1805 quando foram concluídos os aterros
do pântano e construído o cais. A área compreendida
por esses dois espaços foi então destinada pelo governador
do Estado, D. Antonio Saldanha da Gama (1804-1806), aos comerciantes
da cidade para aí construírem casas, armarem suas
barracas e venderem suas mercadorias. Tudo, porém, de maneira
ordenada, visando a formação de uma praça
regular.
E a tal praça regular foi mesmo formada, passando a ser
conhecida como Barracão, Celeiro Público ou Casa
das Tulhas. Virou órgão público em 1820 e
logo se tornou palco de fulgurantes escândalos financeiros
- tantos que a Câmara
da Cidade, a bem da moral pública e da correção
administrativa, resolveu o problema matando o mal pela raiz: extingui-a
em 1833, logo quando uma das principais ruas adjacentes à
Casa das Tulhas, a do Trapiche, era calçada de pedras.
No lugar da antiga Casa das Tulhas foi erguido, alguns anos mais
tarde, um grande edifício retangular, com jardim interno,
chafariz e quatro grandes portões, onde foram construídas
diversas lojas comerciais pela Companhia Confiança Maranhense.
É esse o edifício que atualmente se denomina Feira
da Praia Grande, e que ainda ostenta sobre o frontão de sua
entrada principal as armas do Império do Brasil.
A existência desse grande centro de negócios, onde
se importava e exportava todo tipo de mercadorias, fez crescer em
torno de si um conjunto de imponentes sobrados. Prósperos
negociantes se instalaram no local, revestiram as fachadas de suas
residências de belos azulejos, e como eram quase todos portugueses
de origem, ou descendentes diretos desses, fizeram da Praia Grande
uma pequena Lisboa dos trópicos.
|