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Governador de 1662 a 1667, Rui Vaz de Siqueira foi
um personagem curioso na história do Maranhão. Comendador
de São Vicente da Beira na Ordem de Cristo, já bastante
experimentado como militar, era um homem enigmático e dotado
de sombria determinação.
Por conta de sua brilhante folha de serviços prestados, a
Coroa Portuguesa confiou-lhe a árdua tarefa de apaziguar
a Capitania do Maranhão, à época sacudida por
sucessivos motins da população branca contra os padres
jesuítas e a autoridade real. Para tanto, recebeu da própria
Regente de Portugal poderes discricionários para contornar
esse inquietante estado de coisas, mas, ao mesmo tempo, foi-lhe
recomendado que os usasse com prudência e moderação
- qualidades raras nos oficiais portugueses enviados ao Brasil,
quase todos eles propensos a resolver os conflitos à força
das armas.
Nesse aspecto, Rui Vaz surpreendeu. Chegou a São Luís
sem escolta militar e foi recebido com franca hostilidade: o Senado
da cidade exigiu-lhe que, antes de ser empossado no cargo, assinasse
um documento onde se comprometia moralmente em não opor
resistência à expulsão dos jesuítas,
mesmo que tivesse recebido, em Lisboa, ordens em contrário.
Esse era o caso: tanto a população quanto o Senado
de São Luís queriam ver os jesuítas pelas
costas, pois essa ordem religiosa se opunha com veemência à
captura e ao trabalho escravo dos índios - só que
faltavam braços nas lavouras e nos serviços domésticos.
A situação já rendera vários conflitos,
revoltas e motins. O padre Antônio Vieira estava no centro
da controvérsia, manobrando para que a Coroa restringisse
cada vez mais a escravidão dos nativos e alargasse, em
contrapartida, o poder da sua ordem. Como ele possuía
grande influência
junto à Corte, foi obtendo progressivamente todas essas
concessões.
Rui Vaz não simpatizava muito com os jesuítas, mas
a exigência feita arranhava consideravelmente a sua autoridade
- poderiam depois disso julgá-lo fraco e influenciável.
Ainda assim, correu o risco e concordou em assinar o documento
apresentado
pelo Senado da cidade de São Luís.
Assumindo o governo, começou a virar o jogo a seu favor.
Era bastante hábil em conquistar a simpatia e o apoio de
quem quisesse, e com isso foi paulatinamente apaziguando a situação.
Quando o novo El-Rei de Portugal, Afonso IV, subiu ao trono,
a Coroa
deixou bem claro que os missionários não poderiam
mais interferir no governo temporal dos índios. Os jesuítas
continuariam, claro, sua missão de converter o
gentio, mas essa conversão seria feita também
por outras ordens religiosas, o que antes era proibido. O padre
Antonio Vieira foi
exilado na cidade do Porto, mas por algum tempo a situação
em São Luís ainda permaneceu tensa, pois a população
continuava insatisfeita.
E igualmente insatisfeito estava Rui Vaz. O novo El-Rei havia determinado
que as entradas - missões militares que iam sertão
adentro capturar índios não catequizados para o
trabalho
escravo - tivessem seus comandantes nomeados pelas Câmaras
Municipais, e não mais pelo Governador, que não poderia
mais organizá-las em proveito próprio.
Privado assim de uma fonte de renda certa, e grande, da qual todos
os seus antecessores haviam se aproveitado muito bem, Rui Vaz protestou.
Incitou os ânimos da Câmara de São Luís
contra a de Belém. Conspirou como pôde para evitar
que a nova lei fosse publicada. Depois de muitas idas e vindas,
de réplicas, de negociações e negociatas, conseguiu
o tempo necessário para que se realizassem várias
entradas, e delas obteve o lucro que achava justo a um homem de
sua posição. Centenas de aldeias tapuias pereceram
incendiadas, e um grande número de guerreiros foram aprisionados
e transformados em escravos.
No governo de Rui Vaz uma epidemia de varíola assolou São
Luís e espalhou-se a seguir pelas capitanias vizinhas,
provocando um número significativo de vítimas.
Antes de retirar-se para o Reino, Rui Vaz mandou fazer a primeira
plantação
de tabaco do Maranhão e arcou do próprio bolso a
construção
da igreja de São João Batista.
[A
Ordem de Cristo]
[A
Companhia de Jesus]
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