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  MATÉRIAS ESPECIAIS   |    A alma dos rios - Parte I


Cronista de primeira da aventura francesa no Maranhão, Claude D’Abeville, em seu clássico História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e suas Circunvizinhanças, publicado em Paris no ano de 1614, deixou uma pormenorizada descrição sobre Upaon-Açu - a Ilha Grande dos marañaguaras -, onde os franceses ficaram a cruz e tentaram construir o sonho da França Equinocial.

A seguir, transcrevemos a primeira parte dessa descrição, tão evocativa quanto emocionante:

Antes de falarmos dos costumes dos povos no Maranhão, e suas circunvizinhanças, creio que devo fazer em primeiro lugar a descrição da dita Ilha, mormente quando nem a mencionam os geógrafos que escreveram sobre o Brasil e apenas tratam de um rio com esse nome, o qual não se encontra em todo o país, a não tomarem eles a enseada ou baía do Maranhão por esse rio, ou por alguns outros nela desembocam.

Não há razão, pois cada rio tem o seu nome próprio, como diremos ainda, e além disso com tal nome não conhecem os índios rio algum na sua terra, e sim uma ilha, a que chamam Ilha Grande do Maranhão, para diferençá-la de outras pequenas que existem por aí algures.

Tem esta baía mais de 25 léguas de largura de ponta a ponta, e uma de 25 de diâmetro: está situada próxima ao centro do Cabo das Tartarugas, e na foz do grande rio das Amazonas, distantes estes pontos um do outro algumas 225 léguas da costa do mar.

No princípio da foz desta grande baía, para este, próxima ao Cabo das Árvores Secas, encontra-se uma pequena com duas ou três léguas de circunferência, chamada pelos franceses de Ilhazinha, e depois que aí chegamos e a abençoamos, demos-lhe o nome: de Ilha de Santa Ana, como já disse.

Na distância de 12 léguas da Ilha de Santa Ana, há outra chamada Ilha Grande do Maranhão, tendo bem 45 léguas de circunferência. Está a 2 ½ graus de elevação da linha equinocial do lado do Pólo Antártico.

Desembocam nesta baía três bonitos rios, que vêm por terra firma até a frente da dita Ilha Grande, que é cercada de mar por espaço de 5 a 6 léguas por um lado, e duas ou três por outro, e em outros lugares mais ou menos.

O primeiro rio do lado de este chama-se Munin, tendo meio quarto de légua de largura, e sua foz na distância de 40 a 50 léguas de sua nascente.

O segundo, que está no centro, chama-se Tabucuru, tendo na sua foz meia légua, e de curso 400 a 500 léguas.

O terceiro, a oeste, abaixo dos antecedentes, chama-se Miari, tem na sua foz 6 a 7 léguas de largura, e sua nascente no Trópico de Capricórnio, caminhando muitos outros em sentido paralelo a este até a Maranhão.

Há outro rio chamado Maracu, que se confunde no Pinaré, e este se mistura com o do Miari na distância de 70 a 80 léguas acima de sua foz: mais acima há outro chamado Uaicup, que vem dos matos lançar-se no Miari.

Eis a razão de ser muito volumoso o rio Miari e mui rápido na sua foz, como acontece na foz do Tabucuru, que é metade, se não mais, estrita que a do Miari, tendo dois rochedos aí que o fazem mais estreito do que é realmente em outros lugares, pelo que é muito violento o fluxo e o refluxo do mar.

Tudo isso concorre para fortalecer muito a Ilha Grande do Maranhão, além dos bancos e recifes semeados por todos os lados, e especialmente na foz da baía, os quais a fazem inacessível não só aos que não são bons pilotos, ou não adquiriram experiência do canal pela prática de muitas viagens, mas também a tornam de impossível entrada, a menos que não sejam os navegantes socorridos pela inteligência dos moradores do interior dessa mesma baía.

Esta ilha é a chave de todo o país, porque tem mais de 400 léguas de costa, e por elas não se pode chegar à terra firme, e nem às nações que a habitam.

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[Sobre os tupinambás] 
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