Ao
assumir o comando do Estado do Maranhão e Grão-Pará em
17 de fevereiro de 1678, Inácio Coelho da Silva encontrou
a cidade de São Luís mergulhada em um clima de
sombria inquietação.
Embora fosse época do entrudo - período de três
dias de festas populares que antecediam o início da Quaresma
-, e que não raro se visse pelas ruas pessoas dançando
e participando de ruidosas batalhas campais onde as armas utilizadas
eram baldes de água suja, farinha, gesso, ovos, cabos de
vassouras e colheres de pau, pairava sobre a cidade um sentimento
de profunda melancolia.
De fato, em torno da pessoa de Inácio da Silva, Capitão
de Couraças, Fidalgo da Casa Real, ex-capitão-mor
da Paraíba, soldado experiente e afamado desde sua brilhante
participação na batalha de Montes Claros, travada
em 1665 contra os espanhóis durante a Guerra da Restauração,
pesava uma expectativa bastante negativa. Seu antecessor, Pedro
César de Menezes, tinha angariado a admiração
do povo e da nobreza de São Luís por conta do caráter
afável - muito embora, é verdade, terminasse o mandado
em meio à grave crise deflagrada pela conjuração
do vereador Mateus de Carvalho Siqueira e do padre Antonio Lameira
Fraba, entre outros. Não se esperava, contudo, que Inácio
da Silva fosse assim.
E ele não era mesmo.
Inácio da Silva possuía personalidade fortíssima.
Tratou corretamente seu antecessor, cumulando-o de atenções
e gentilezas a despeito das tentativas feitas para intrigá-los,
mas não admitia ser contestado. Era áspero no trato.
Era autoritário.
Permaneceu em São Luís durante cinco meses, cuidando
da administração da cidade e fazendo os preparativos
para se mudar para Belém, que já há tempos
vinha sendo a capital de fato do Estado do Maranhão e Grão-Pará.
Pouco antes de sua partida, anunciou que Vidal Maciel Parente ficaria
no governo da capitania-geral do Maranhão.
Essa decisão, no entanto, provocou revolta no Senado da
Câmara de São Luís, onde Manuel Beckman encabeçou
um movimento de resistência à nomeação
de Vidal Maciel Parente, visto que esse era descendente direto
de Bento Maciel Parente, o execrado governador que havia entregado
o Estado, sem resistência, à dominação
holandesa.
De certa forma, a posição de Beckman tinha respaldo
numa proposta feita em 1643 pela Câmara de Belém ao
então governador Pedro d’Albuquerque, onde era solicitado
que todos os descendentes de Bento Maciel fossem proibidos de exercer
qualquer cargo público no Estado. Mas havia também
uma boa dose de preconceito envolvido no episódio, pois,
para Beckman, Vidal não passava de um ‘mameluco e
bastardo’, e em sua opinião havia em São Luís
pessoas muito mais capacitadas do que ele para exercer aquele alto
posto.
Inácio da Silva, contudo, não pensava assim e nem
se deu ao trabalho de explicar sua decisão: simplesmente
mandou prender Beckman e, em seguida, desterrou-o para o forte
de Gurupá. Não era homem de admitir resistências à sua
vontade ou às suas ordens. Ressentido, mandou que fosse
aberto um processo contra Beckman, a quem acusou de inquietar o
povo, comandar sedições e criar tumultos.
Ao mesmo
tempo em que dobrava com mão de ferro a espinha
de seus desafetos, Inácio da Silva via-se enredado num problema
antigo, difícil de solucionar: a crônica falta de
recursos da colônia. Diligente, não se deixou abater
por isso, e já em 1678 imaginou uma maneira de superar esse
limitador de suas ações – a criação
do Estanco da Fazenda Real. Tratava-se, efetivamente, de uma modalidade
de financiamento onde a Coroa arcaria com o fornecimento de todo
aço, ferro, facas e velórios - conjunto de velas
para os navios - necessários para incrementar o comércio
da colônia e, em última análise, gerar riquezas
e promover o desenvolvimento do Estado. Em troca, caberia à Coroa
receber pelo investimento feito as drogas e os produtos do país.
Produtos
como o âmbar, por exemplo.
Tendo como pretexto assegurar a
tranqüilidade da navegação
portuguesa ao longo da foz do Rio Parnaíba, vez por outra
ameaçada pela ação dos índios taramambezes
que habitavam a região de Tutóia, no litoral do Maranhão,
mas realmente interessado no lucro a ser obtido pelo resgate do âmbar,
que por ali era razoavelmente abundante, Inácio da Silva
decidiu-se pela destruição pura e simples dessa tribo.
Manobrando habilmente, conseguiu que representantes da nobreza,
do clero e da Câmara do Senado de São Luís,
reunidos numa Junta Geral de Governo, dessem respaldo à sua
decisão de preparar uma expedição punitiva
contra essa tribo, e a 08 de junho de 1679 foi expedida a ordem
para que as ações de guerra começassem. Sem
perda de tempo, o Governador determinou que o comando da tropa
ficasse a cargo de Vital Maciel, famoso por desempenhar com brilho
e eficiência a triste função de carniceiro.
Vital
Parente, é claro, não decepcionou: à frente
de cento e cinqüenta soldados de linha, e cerca de quinhentos índios
amigos, combateu os taramambezes em seus próprios domínios,
massacrando indiscriminadamente homens, mulheres, crianças
e velhos. Depois de perpetrar esse crime, a expedição
subiu o rio Parnaíba, tentando localizar sua nascente, mas
não obteve êxito. Logo a seguir, retornou a São
Luís.
Nesse ínterim, em 11 de julho de 1679, D. Gregório
dos Anjos, da Congregação dos Cônegos de São
João Evangelista, bispo titular de Malaca, tomava posse
solene no posto de primeiro bispo da Sé do Maranhão.
Essa data é um marco na história de São Luís,
já confirmada como vila de dois mil habitantes na bula Super
Universas Orbis Ecclesias, datada de 30 de agosto de 1677
Com relação ao próprio D. Gregório
- homem da Igreja reconhecido universalmente como cientista e letrado
-, a decepção não poderia ter sido maior,
pois logo ele se revelou um personagem cujo verdadeiro credo era
o enriquecimento rápido à custa da escravização
dos índios. Além disso, tinha um comportamento francamente
autoritário – o que, de certa forma, tornou inevitável
seu confronto com outras autoridades e com o povo em geral.
Inácio da Silva, por seu turno, seguia construindo prédios,
reformando templos, cumprindo diligentemente as determinações
da Coroa, sobretudo no que diz respeito ao incentivo da cultura
do cacau e da baunilha, além do anil. Cuidava bem dos negócios
públicos, mas não perdia a oportunidade de ganhar
dinheiro para si e, claro, para El-Rei. Sob seus cuidados e incentivos,
os cidadãos de São Luís procuravam melhorar
a feição de suas residências e dar à cidade
uma aparência mais organizada e bonita. Continuava, no entanto,
despótico e irascível - e há relatos de que
tenha mandado construir masmorras subterrâneas onde confinava
aqueles que o desagradassem.
Foi no governo de Inácio da Silva que a Carta Régia
de 25 de fevereiro de 1680 desligou o Ceará do Estado do
Maranhão. Foi ainda em 1680 que Inácio da Silva desistiu
do Estanco – os resultados obtidos com a empreitada não
empolgaram, e no que lhe dizia respeito a experiência havia
malogrado, devendo ser deixada de lado. A Coroa, pouco tempo depois,
achou que a idéia podia ser levada em frente, mas com algumas
modificações.
Em maio de 1682, Inácio da Silva passou o poder para o
sucessor nomeado por El-Rei e retirou-se do Maranhão.
|