No
alvorecer do século XX, São Luís foi palco de uma espetacular renovação
em sua já consagrada tradição literária.
Figuras
de proa das letras maranhenses, tais como Antonio Lobo e Fran Paxeco, pelo
lado da Oficina dos Novos, e Nascimento de Moraes, pela Renascença,
congregavam em torno de suas agremiações culturais uma geração
de promissores talentos artísticos – poetas, em sua esmagadora
maioria.
Na
pacata e provinciana São Luís de então, ainda docemente
mergulhada na névoa de sua secular herança portuguesa, esse
dois grêmios de intelectuais travavam embates duríssimos pelos
jornais e revistas que circulavam na cidade e, não raras vezes, a
disputa de idéias terminava numa saraivada de pesados insultos
de parte a parte.
Foi
nesse cenário vivo e conturbado que aportou, vindo de Pedreiras,
sua cidade natal, o jovem Raimundo Corrêa de Araújo.
Nascido
em 1885, Corrêa de Araújo trouxe consigo, desde cedo,
a veia de uma poesia majestosa, fortemente romântica, cultuadora do
soneto límpido – mas, ao mesmo tempo, desconcertante e já profundamente
eivada de certa inquietação dos sentidos. Os originais de seu
primeiro livro, Harpas de Fogo, estavam prontos mal o poeta completara dezesseis
anos – e foram publicados em 1903.
Nesse
primeiro momento de sua carreira literária, Corrêa de
Araújo vai se vincular à Renascença – e o prefácio
feito por Nascimento de Moraes para seu livro de estréia é um
eloqüente testemunho desse fato. Tal adesão, como não
poderia deixar de ser, custou ao poeta a pronta inimizade de Antonio Lobo,
que sem cerimônia passou a chamá-lo de caboclo beiçola.
O
interessante no episódio é que, embora insultado de maneira
tão virulenta, não muito tempo depois lá estava Corrêa
de Araújo figurando como paladino da agremiação dos
Novos Atenienses: e merecendo de Nascimento de Moraes, por seu turno, a denominação
de simples pseudônimo de Antonio Lobo - a quem, aliás, chamava
de verdadeira glória morta.
Dotado
de um forte ânimo combativo, Corrêa de Araújo
viveu mais que a maioria dos poetas que lhe foram contemporâneos, e
essa sorte biológica permitiu que ele amadurecesse e aprimorasse seu
fazer poético. Publicando regularmente seus trabalhos, conseguiu até um
considerável avanço estético ao tornar personalíssima
a dicção parnasiano-simbolista que passou a adotar em sua poesia
- mas destacava-se, sobretudo, nas metáforas intricadamente elaboradas
e no verso límpido.
Após publicar seu segundo livro, Evangelho de Moço, em 1906,
Corrêa de Araújo passa a dedicar-se mais aos estudos – forma-se
em Direito pela Faculdade do Maranhão e, logo após, vai ensinar
Sociologia e História no prestigioso Liceu Maranhense. É um
dos fundadores da Academia Maranhense de Letras.
Irrequieto,
profundamente crítico do mundo à sua volta, enfronha-se
nas doutrinas teosóficas e envereda pela sátira. Em 1930, é preso
e demitido do serviço público – governo nenhum gosta
de poetas satíricos, sobretudo quando é abertamente ridicularizado
por eles.
Há quem considere que Corrêa de Araújo tenha, nesse
período da vida, perdido um pouco a razão – declamava
seus poemas mais lancinantes em praça pública, muitas vezes
aos pés da estátua de Gonçalves Dias, no Largo dos Amores.
Era também violentamente anticlerical e, de poeta simbolista, depois
satírico, transforma-se num ensaísta panfletário. Torna-se
integralista ferrenho, virulento – polemiza e perde-se em disputas
vazias até silenciar de vez a poderosa voz do poeta que fora
na juventude.
Corrêa de Araújo morreu em São Luís
no dia 24 de agosto de 1951.
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