Com
a aproximação das festas juninas, São Luís
começa a viver uma época mágica, que assinala
o final da estação das chuvas e o começo dos
dias ininterruptos de sol, de céu azul profundo e noites
estreladas.
Maio é assim como um pré-carnaval para os batalhões
de bumba-meu-boi: mês de muito ensaio, de preparação
das fantasias, de divulgação das toadas e do aquecimento
dos padeirões, matracas e zabumbas.
Na
série de artigos que inicia agora, o Patrimônio
irá apresentar os mais diferentes aspectos e as muitas peculiaridades
que envolvem essa que é a mais popular das manifestações
folclóricas do Maranhão.
E
para começo de conversa, vale logo um esclarecimento: dentro
da brincadeira do bumba-meu-boi, embora a história de Pai
Francisco e de sua mulher, Catirina, seja uma só, ela é contada
ao som de diferentes ritmos, ou sotaques.
O
sotaque de um boi é, a bem dizer, a sua alma – e
esta alma pode ser declarada de zabumba, orquestra, matraca ou costa-de-mão.
Inicialmente, vamos no ater apenas ao sotaque de matraca, que é o
mais popular em São Luís.
Nesse
sotaque, os batalhões realçam as matracas dentre
o conjunto de instrumentos utilizados na percussão – e
por matracas entenda-se dois pedaços de madeira bastante rústicos
que são freneticamente batidos um contra o outro, obedecendo
a um ritmo bastante peculiar, repinicado, que produz uma levada simplesmente
contagiante.
Secundado
o troar das matracadas e adensando o som que envolve os brincantes
e se espraia num poderoso staccato, temos ainda maracás,
tambores-onça e pandeiros. Cada um desses instrumentos merece
ao menos uma nota.
Os
pandeiros, por exemplo: são construídos a partir
de uma grande circunferência de madeira fina, de mais ou menos
quatro dedos de altura, e cobertos com couro de bode ou cabra. Curiosa
mesmo é a maneira utilizada para afiná-los: seus tocadores,
a cada arraial onde o batalhão se apresenta, fazem fogueiras
e colocam esses instrumentos para pegar um calor e amaciar o couro – então,
começam a bater neles até que o som obtido seja considerado
ideal.
Já os maracás, que são feitos de flandres e
contêm em seu interior oco um punhado de grãos de chumbo
ou qualquer outro material parecido, podem ser dos mais variados
tamanhos, mas se constituem em instrumentos de caráter reservado,
especial: só podem ser sacudidos pelos brincantes do boi que
fizerem os papéis dos vaqueiros e dos rapazes, ou então
pelo próprio amo.
Nesse
sentido, mais democrático é o tambor-onça – um
cilindro de flandres ou madeira com uma das extremidades cobertas
de couro -, visto que qualquer um pode tocá-lo. E quando se
diz tocá-lo, está se dizendo deslizar para cima e para
baixo um bastão fixado, pela parte de dentro, à extremidade
coberta pelo couro, e em produzir um som alto, simplesmente aterrador
e em tudo semelhante ao urro de uma onça.
Em
tempo: para quem estranhou o termo batalhão, é bom
se acostumar com a idéia de que é assim mesmo que se
designa um grupo de brincantes do bumba-meu-boi. E mais: os batalhões
podem ser leves ou pesados, dependendo do número de seus integrantes
e da força instrumental de suas toadas.
No
Maranhão, os mais famosos bois de matraca estão
em São Luís: Madre Deus, Maracanã e os batalhões
pesados da Maioba e de São José de Ribamar.
Continua
no próximo artigo com os bois de zabumbas.
[O
Auto do bumba-meu-boi]
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