O poeta maranhense Ferreira Gullar, autor do Poema Sujo – obra-prima
da poesia brasileira do século XX –, foi alvo de uma inusitada
homenagem no dia 17 de novembro de 2006, no Centro Cultural da Justiça
Federal do Rio de Janeiro.
Contando
com a participação de um público
estimado em duzentas pessoas, o evento comemorou o transcurso dos
trinta anos da publicação do Poema Sujo com uma exposição,
um recital de poesia e a degustação, pelos visitantes,
de trechos do poema feitos em folhas de chocolate. Além
da presença do próprio homenageado, a sensação
da noite foi, sem dúvida, a apresentação de
uma grande estátua de Gullar feita totalmente em chocolate
maciço.
A
idéia de fazer a estátua nasceu de uma conversa
entre Diego Lozano, Consultor em Confeitaria e Chocolateria Européia;
Sérgio Vennuto e Carlos Dimuro, poeta e curador do evento.
A princípio, a intenção do grupo era confeccionar
apenas o busto de Gullar, preenchendo a cabeça
da escultura com bombos embalados em trechos do Poema
Sujo
e assinados pelo
autor.
Depois
de ouvir a opinião de vários conhecidos,
o grupo logo descartou o projeto do busto - que, segundo Lozano, ‘ficaria
estranho na prática’, já que ‘lembraria
muito o filme Planeta dos Macacos’.
Foi
aí então que entrou em cena o escultor Murilo
Sá Toledo.
Artista
já bastante experiente em seu metiê, Toledo
foi decisivo para que uma concepção mais arrojada
do projeto inicial pudesse ser desenvolvida e, enfim, posta em
prática: seria moldada, em chocolate maciço, uma
estátua de corpo inteiro do poeta.
Para
o grupo, tratou-se de um enorme desafio – nenhum dos
participantes tivera antes qualquer tipo de experiência semelhante
em suas carreiras, fosse pelo material a ser utilizado, fosse até pelo
tamanho concebido para a peça. E havia ainda um complicador:
era imprescindível que o escultor tivesse ao menos um contato
direto com o modelo, de forma a poder captar-lhe a essência,
apreender a alma que seria transposta para o modelo de argila.
Contataram
Gullar e a recepção não poderia
ter sido melhor: o poeta não só gostou do projeto
como ficou à disposição para receber o grupo
em sua residência.
Depois
desse encontro, foram meses de trabalho ininterrupto. Primeiro,
confeccionaram uma escultura em argila, depois outra em bronze
e, logo a seguir, outra em silicone. Finalmente chegaram à de
chocolate maciço, contado já com o apoio
de Nilson Silva, chocolatier da Harald, e da empresa
Stalden, que cedeu vários
transfers de chocolate.
A
etapa do transporte foi especialmente difícil. A escultura
precisou ser levada de São Paulo para Penedo, onde recebeu
os últimos retoques, e de lá seguiu para o Rio de
Janeiro. Os trechos esburacados da Dutra e as variações
na temperatura cobraram alto preço, danificando a peça
em vários pontos, o que demandou uma série de retoques
de emergência até a chegada no Centro Cultural da
Justiça Federal.
A
exposição, claro, teve a melhor acolhida junto
ao público, e Lozano, Vennuto, Dimuro e Toledo prometem
que a escultura de Gullar será a primeira de uma série – afinal,
o grupo está firme no propósito de construir
o primeiro Museu do Chocolate no Brasil.
Em
tempo: a escultura de Gullar permanece no Centro Cultural
da Justiça Federal até o dia 07 de janeiro de 2007,
de onde será então levada de volta a Penedo, ficando
exposta na Kaakao Penedo até o mês de agosto. Ainda
em agosto de 2007, a peça voltará para o Rio de Janeiro
e será exposta no Hotel Glória como parte das comemorações
pelos oitenta e cinco anos da fundação
do hotel.
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